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Meus livros, minha vida...

Meus livros, minha vida...

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Este mês de setembro de 2017 marca um grande ponto de inflexão em minha vida. Depois de muita ponderação, resolvi doar minha biblioteca a uma instituição teológica de ensino. Nos últimos dois dias os laboriosos rapazes que vieram armados com boa disposição, caixas e uma van empacotaram e levaram cerca de 3.000 livros, representando 90% de tudo o que eu possuía até há pouco.

Tudo isso foi precedido por um incansável trabalho de arrumação, catalogação, rotulagem e triagem realizado por minha esposa e auxiliares, que levou dias. Com um misto de alívio, desprendimento e tristeza, ela cumpriu estoicamente essa tarefa. Em algumas noites, eu participava das avaliações e despedidas dos volumes que marcaram minha vida nesses setenta anos que completarei daqui a um mês. Em alguns momentos, eu expressava: “não quero mais olhá-los, pois todos são bons ou proveitosos. Até os ruins são bons, porque aprendi algo com eles, ainda que fosse como não abordar ou fazer as coisas”.
Retive uns poucos de valor inestimável, ainda que tenha doado livros antigos e raros e outros que foram contra as movimentações de um coração que dizia, “Fica com esse! Fica com esse”. Para outros, minha esposa dizia, “esses não vão contribuir muito...”. Mas eu insisti, “não, o acordado foi que iria ‘the good, the bad, and the ugly’; depois eles fazem a triagem do que desejam conservar”.
E nessa torrente avassaladora “quebra-coração”, foram teologias sistemáticas de Hodge até Berkhof; as obras completas de John Owen; a ISBE (International Standard Bible Encyclopedia); clássicos de Dabney, Warfield, Gill, Baxter; livros de Rushdoony, Schaeffer, Van Til, Van Riesen, Hebden Taylor; comentários profundos de Lensky Hendriksen, Barnes, Leopold; obras de autores contemporâneos, como Gruden, Horton, Murray; trabalhos maravilhosos de importantes teólogos e apologetas do exterior e de conhecidos autores nacionais, de igual peso e teor. Livros familiares, de caminhos muitas vezes trafegados, e outros que pareciam selva fechada, ainda a desbravar. Predileções renovadas, na medida em que eram folheados novamente, e outros que despertavam centelhas de curiosidade sobre o que as páginas preciosas, que nunca mais serão por mim perscrutadas, teriam para revelar, sorvido que fui pelas obrigações intensas que me impedem uma leitura maior.
Por que doá-los, se parte tanto o coração? Aproxima-se a cada dia a data na qual, algum dia, serei removido do contexto e circunstâncias atuais, quer geograficamente para outras paragens, quer transcendentalmente para onde os anos da velhice naturalmente leva a todos (no meu caso, para a glória eterna). Na realidade, é certo que qualquer uma dessas duas possibilidades se apresenta com lampejos de muita esperança, confiança, descanso e conforto na soberania divina. Na realidade, a qualquer momento, e isso é válido para velhos ou novos, a jornada nesta vida pode ser interrompida por uma enfermidade, um acidente, pela violência que reina nesse mundo tenebroso, ou por qualquer outra situação, sempre debaixo do soberano plano divino e da boa mão de Deus. Mas meus livros cumpriram sua função nessa ligação de intensa amizade e apreço comigo.
A quem doá-los? Meus três filhos e minha filha estão espalhados pelo mundo, graças ao bom Deus, cada um servindo a Ele em diferentes situações, com suas famílias. Inviável deixá-los com eles. Além disso, nesta era de Amazon, Kindle, eBooks, Logos, etc., muitas bibliotecas pessoais são supridas por essas vias, ainda que eu insista que nós, seres humanos, somos essencialmente analógicos e nada substitui a interatividade que temos com um livro, quando o manuseio é real e não digital. Durante algum tempo pensei em fazer uma maratona de doações pessoais, a seminaristas e pastores. Ainda que eu tenha feito isso diversas vezes, os problemas logísticos e de falta de tempo para continuar com a prática, demonstraram a inviabilidade desse caminho. Cheguei à conclusão que meus livros estariam mais bem acomodados e com a possibilidade de beneficiar mais vidas se viessem a ampliar a biblioteca de uma instituição de ensino teológico, ainda em formação. Procuramos uma que estivesse mais próxima à nossa residência, desvencilhei-me das amarras, fechei os olhos, tampei o nariz e mergulhei no escuro.
Por que “meus livros, minha vida”? Porque além deles terem contribuído significativamente para minha formação e elucidado tantos pontos importantes da Palavra de Deus, cada um deles tem um significado maior na sua origem, no seu texto, nas suas páginas iniciais, nas marcações que receberam – com frases e lembretes, ou apenas com um sutil sublinhar do que mais importava. “Este aqui foi quando conheci minha esposa; esses outros, foram presentes do meu sogro; veja esta anotação – eu estava estudando o assunto e derivei várias palestras desse tópico; este é abominável, mostra como o bom pensar é algo em extinção; este eu recebi do autor; não posso enviar esses, ainda estou estudando isso e planejo escrever sobre a matéria; este foi do meu filho e ele recebeu de presente daquela senhora, que deixou para ele pouco antes de falecer...”. E assim os momentos iam se sucedendo, na medida em que eu folheava apenas alguns dos que marcaram cada ponto, cada evento, cada pessoa, cada autor que fez parte de minha vida. Além disso, fico pensando que mesmo antes de eu nascer alguns desses livros já tinham sido separados por meus pais para que me acompanhassem por longos anos.
Muitos foram doados com as dedicatórias originais dos autores. Tive conflitos, se eu deveria doar esses também. Alguns desses autografados vieram de autores amigos! Mas era inviável conservá-los, uma vez tomada a decisão maior. Resta me jogar nos braços da misericórdia e boa vontade desses, que tão gentilmente me enviaram suas obras, com um sincero pedido de perdão. Tenham certeza de que os presentes foram muito apreciados, e a doação em momento algum representa desprezo ou descaso pela dádiva gentil das preciosidades de suas lavras. Apenas seguirão o fluxo e propósito comum, com os demais, de abençoarem a muitos, da mesma forma como me abençoaram nesses anos em que ficaram em minha companhia. Essa é a petição que faço a Deus, bem como que me devolva a alegria momentaneamente suprimida pela dor da separação.
Solano Portela, 27.09.2017

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