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Calvino, o teólogo do Espírito Santo. 500 da Reforma

Calvino, o teólogo do Espírito Santo. 500 da Reforma

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O tema deste artigo é “João Calvino, o teólogo”, e considero que se espera de mim que eu transmita uma ideia de que tipo de teólogo João Calvino foi e de sua qualidade como pensador teológico.

Receio que terei que lhe pedir, já no início, que remova de sua mente uma impressão muito comum, a saber, que as principais características de Calvino como teólogo eram, por um lado, a audácia — talvez eu pudesse ter dito “ousadia” — da especulação; e, por outro lado, a ausência de piedade no desenvolvimento lógico, o escolasticismo frio e sem coração. Tem sido afirmado, por exemplo, que ele argumenta sobre os atributos de Deus tão precisamente como ele poderia argumentar sobre as propriedades de um triângulo. Nenhum equívoco poderia ser mais grosseiro. O teólogo especulativo da Reforma foi Zwínglio, não Calvino. O teólogo escolástico entre os primeiros reformadores foi Pedro Mártir, não Calvino. Este fato foi completamente compreendido pelos seus contemporâneos. “Os dois mais excelentes teólogos de nosso tempo”, observa Joseph Scaliger, “são João Calvino e Pedro Mártir, o primeiro dos quais lidou com as Sagradas Escrituras como elas deveriam ser tratadas — com sinceridade, pureza e simplicidade, sem quaisquer sutilezas escolásticas… Pedro Mártir, porque parece que ele precisou lidar com os sofistas, e os venceu de modo sofístico e os derrubou com as próprias armas deles”.

Não se deve negar, é claro, que Calvino foi um gênio especulativo de primeira grandeza e que com o poder de sua análise lógica possuía uma arma que o tornava terrível para seus adversários. Mas não foi desses dons que ele dependia na formação e desenvolvimento de suas ideias teológicas. Seu método teológico foi persistente, rigoroso, alguns podem mesmo dizer de forma exagerada, a posteriori. Ele não apenas evitou todo raciocínio a priori aqui, mas vigorosamente o repelia. Seu instrumento de pesquisa não era a amplificação lógica, mas uma investigação exegética. Em resumo, ele era claramente um teólogo bíblico, ou, digamos francamente, o teólogo bíblico de sua época. Para onde a Bíblia o levava, para lá ele ia; onde as declarações das Escrituras calavam, ali ele parava.

É isso que confere ao ensino teológico de Calvino a qualidade que é sua principal característica e sua verdadeira ofensa aos olhos de seus críticos — quero dizer, sua positividade. Não há confusão quanto à confiabilidade em seus ensinamentos, e talvez não seja surpreendente que essa nota de confiança irrita os seus críticos. Eles se ressentem do ar de finalidade que ele dá às suas declarações; sendo que ele dá esse ar de finalidade porque as apresenta não como seus ensinos, mas como os ensinos do Espírito Santo em Sua Palavra inspirada. A positividade do tom de Calvino não é, portanto, uma marca de extravagância, mas de sobriedade e restrição. Ele fala mesmo com impaciência sobre o especulativo, e o que podemos chamar de teologia inferencial, e ele é, portanto, referido com impaciência pelos historiadores modernos do pensamento como um “teólogo meramente bíblico”, que não tem, portanto, qualquer verdadeira doutrina de Deus, como Zwínglio. A censura, se for uma censura, é justa. Calvino se recusou a ir além do “o que está escrito” — escrito claramente no livro da natureza ou no livro da revelação. Por exemplo, ele insistiu em que não podemos saber nada sobre Deus, exceto o que Ele escolheu nos dar a conhecer em Suas obras e em Sua Palavra; tudo além disso é apenas fantasia vazia, que meramente “se agita” no cérebro. E era apenas porque ele se recusava a dar um passo além do que está escrito que sentia tanto a firmeza de seus passos. Ele não conseguia apresentar as declarações do Espírito Santo como uma série de proposições discutíveis.

Tal atitude em relação às Escrituras poderia consistir em um intelectualismo completo, e Calvino certamente é muito amplamente considerado como alguém eminentemente intelectual. Mas essa é novamente uma má compreensão. A positividade do ensino de Calvino tem uma raiz muito mais profunda do que apenas a convicção de sua compreensão. Quando Ernest Renan o caracterizou como o homem mais cristão de sua geração, ele não intencionou louvá-lo em demasia, mas fez uma observação muito verdadeira e muito mais profunda do que pretendia. A característica fundamental da natureza de Calvino era precisamente a religião. Não é apenas que todo o seu pensamento seja permeado por um profundo sentimento religioso; é que toda a substância de seu pensamento é determinada pelo motivo religioso. Assim, sua teologia, se alguma vez houve uma teologia do coração, era distintamente uma teologia do coração, e nela a máxima “é o coração que faz o teólogo” talvez encontre a sua mais eminente ilustração.

É evidente que a sua inteligência ativa e poderosa penetrou nas profundezas de cada assunto que tratou, mas ele era incapaz de lidar com qualquer assunto religioso de uma forma que só serviria ao que lhe pareceria ser a curiosidade ociosa da mente. Não era que ele se restringisse quanto a tais exercícios meramente intelectuais sobre os temas da religião; é que a força de seu interesse religioso instintivamente os inibia.

Calvino marcou uma época na história no que diz respeito à doutrina da Trindade, mas de todos os grandes teólogos que se ocuparam desse elevado assunto, nenhum foi mais determinado do que ele a não se perder nas sutilezas intelectuais que são convidativas à mente inquisitiva; e ele marcou uma época no desenvolvimento da doutrina exatamente porque o seu interesse nela era vital e não mera ou principalmente especulativo. Ou considere a grande doutrina da predestinação que se tornou identificada com o nome dele, e com respeito à qual ele talvez, mais comumente dentre todas as coisas, poderia ter tendido à construção especulativa e ter forçado o desenvolvimento lógico para extremos injustificáveis.

É claro que Calvino, na clareza cristalina e honestidade incorruptível de seu pensamento e na fidelidade de sua reflexão sobre o ensino bíblico, compreendeu plenamente e sustentava fortemente a doutrina da vontade de Deus como principal causa rerum, e essa também era uma concepção religiosa dele e foi constantemente afirmada apenas porque era uma concepção religiosa — sim, em um sentido elevado e verdadeiro, a mais fundamental de todas as concepções religiosas. Porém, mesmo assim, não foi à essa predestinação cósmica que o pensamento de Calvino se voltou mais persistentemente, mas sim à predestinação soteriológica sobre a qual ele deveria descansar como um pecador desesperado que precisava da salvação que provém da livre graça de Deus. E, portanto, Ebrard está muito certo quando afirma que a predestinação aparece no sistema de Calvino não como o decretum Dei, mas como o electio Dei.

Não é uma habilidade meramente controversa que leva Calvino a deixar de citar a predestinação quando está falando sobre a doutrina de Deus e da providência, e reservá-la para o ponto em que ele fala sobre a salvação. Esse é o lugar onde se encontra o interesse mais profundo. O que estava enchendo o seu coração e transbordando em todas as câmaras de sua alma era um profundo senso de sua dívida como um pecador perdido em relação à livre graça de Deus, seu Salvador. Seu zelo em afirmar a doutrina da dupla predestinação é fundamentado na clareza com que ele percebeu — como foi percebido também por todos os demais Reformadores — que somente assim o fermento maligno do “sinergismo” seria eliminado e a livre graça de Deus seria preservada em sua pureza no processo de salvação. As raízes de seu zelo são enraizadas, em resumo, em sua consciência, como pecador, da absoluta dependência da livre misericórdia de um Deus salvador. A soberania de Deus na graça era um componente essencial de sua consciência religiosa mais profunda. Como o seu grande mestre, Agostinho — como Lutero, Zwínglio e Bucer e todos aqueles outros espíritos elevados que provocaram o grande avivamento da religião que chamamos de Reforma — ele não poderia suportar que a graça de Deus não recebesse toda a glória pela redenção dos pecadores da destruição na qual eles estavam, e a partir da qual, exatamente porque estavam envolvidos nela, eles não poderiam fazer nada para a sua própria restauração.

O interesse fundamental de Calvino como um teólogo estava na área chamada geralmente de soteriológica. Talvez possamos ir mais longe e acrescentar que, nesse campo amplo, seu interesse era mais intenso na aplicação à alma pecadora da salvação operada por Cristo no que é tecnicamente conhecido como a ordo salutis. Isso já foi feito em algumas tentativas, e nos disseram que a principal falha das Institutas como um tratado na ciência teológica, está em seu caráter muito subjetivo. Seu efeito, em todo o caso, tem sido constituir Calvino como preeminentemente o teólogo do Espírito Santo.

Calvino fez contribuições de grande importância para outras áreas do pensamento teológico. Já foi observado que ele marca uma época na história da doutrina da Trindade. Ele também marca uma época no modo de apresentar a obra de Cristo. A apresentação da obra de Cristo sob as rubricas do ofício triplo de profeta, sacerdote e rei foi introduzida por ele; e a partir dele, foi assumida por toda a Cristandade, nem sempre, é verdade, em seu espírito ou com sua completude de desenvolvimento, mas ainda assim com grande benefício. Na ética cristã, seu impulso também provou influenciar uma época, e essa grande ciência foi para uma geração cultivada apenas por seus seguidores.

Contudo é provável que a maior contribuição de Calvino para a ciência teológica está no rico desenvolvimento que ele dá — e que ele foi o primeiro a dar — à doutrina da obra do Espírito Santo. Sem dúvida, desde a origem do Cristianismo, todos os que foram, ainda que levemente, imbuídos do espírito cristão creram no Espírito Santo como o Autor e Doador da vida e atribuíram tudo o que é bom no mundo, e particularmente em si mesmos, aos seus santos ofícios. E, é claro, ao falar sobre a graça, que Agostinho elaborou a doutrina da salvação como uma experiência subjetiva com grande vivacidade e em grande detalhe, e todo o curso dessa salvação foi totalmente compreendido, sem dúvida, como sendo obra do Santo Espírito. Mas no mesmo sentido em que podemos dizer que a doutrina do pecado e da graça datam de Agostinho, a doutrina da expiação de Anselmo, a doutrina da justificação pela fé de Lutero, devemos dizer que a doutrina da obra do Espírito Santo é uma dádiva de Calvino para a igreja. Foi ele quem primeiro relacionou toda a experiência da salvação especificamente à obra do Espírito Santo, a elaborou em seus detalhes e contemplou seus vários passos e estágios em progresso ordenado como resultado da obra específica do Espírito Santo na aplicação da salvação à alma. Assim, ele deu expressão sistemática e adequada para toda a doutrina do Espírito Santo e a tornou uma possessão segura da igreja de Deus.

Tem sido comum afirmar que toda a obra teológica de Calvino pode ser resumida nisso: Que ele emancipou a alma da tirania da autoridade humana e a livrou das incertezas da intermediação humana nas coisas religiosas; que ele trouxe a alma para a imediata presença de Deus e a lançou — para a sua saúde espiritual — sobre a livre graça de Deus somente. Onde o Romanista colocou a igreja, é dito que Calvino colocou a Deidade. Essa afirmação é verdadeira, e talvez, quando bem entendida e preenchida com seu conteúdo adequado, possa caracterizar de modo suficiente o efeito de seu ensino teológico. Mas, essa afirmação é expressa de modo muito geral para ser apropriada. O que Calvino fez especificamente foi substituir a doutrina da igreja como única fonte de conhecimento seguro sobre Deus e única instituição de salvação, pelo Espírito Santo. Anteriormente, os homens buscavam a Igreja a fim de obterem todo o conhecimento confiável sobre Deus, e também para que tivessem todas as comunicações acessíveis da graça. Calvino ensinou-lhes que nenhumas dessas funções foram dadas à igreja, mas Deus, o Espírito Santo, manteve ambas em suas próprias mãos e que ele concede o conhecimento de Deus e a comunhão com Deus a quem lhe apraz.

Portanto, as Institutas são apenas um tratado sobre a obra de Deus, o Espírito Santo, fazendo com que Deus seja conhecido de modo salvífico pelo homem pecador e levando o homem pecador à santa comunhão com Deus. Por isso, as Institutas iniciam com a grande doutrina do testimonium Spiritus Sancti — outra das doutrinas frutíferas que a igreja deve a Calvino — na qual ele ensina que o único conhecimento vital e vitalizador de Deus que um pecador pode alcançar é comunicado a ele através da obra interna do Espírito de Deus em seu coração, sem a qual permanecem em vão diante de seus olhos a revelação da glória de Deus nos céus e a revelação de sua graça nas páginas perspicazes da Palavra. E, assim, se concentra na grande doutrina da regeneração — o termo é suficientemente amplo em Calvino de modo a envolver todo o processo de restauração subjetiva do homem a Deus — na qual ele ensina que o único poder que pode despertar em um coração pecaminoso as ações de uma fé viva, é o poder desse mesmo Espírito de Deus se movendo com uma operação verdadeiramente criativa sobre a alma morta. Quando essas grandes ideias se desenvolvem em sua plena expressão — com a explicação de todos os seus pressupostos no amor de Deus e na redenção de Cristo e de todas as suas relações e consequências — temos a teologia de Calvino.

Agora, é claro que uma teologia que relaciona tudo às operações do Espírito de Deus que “opera quando, onde e como lhe agrada”, faz tudo depender do soberano beneplácito de Deus. A teologia de Calvino é, portanto, a predestinação em sua essência, e ele não falha na fidelidade aos ensinos da Escritura e com o gênio sistematizador de olhos iluminados, para desenvolver seu predestinarianismo com plenitude e ênfase; compreendendo tudo o que ocorre como sendo a vontade de Deus se cumprindo, e reivindicando a Deus a glória que é devida a Ele como o Senhor e ordenador de todas as coisas. Mas essa não é a peculiaridade de sua teologia. Agostinho ensinou tudo isso mil anos antes dele. Lutero, Zwínglio e Martin Bucer, seu próprio mestre nesses elevados mistérios, estavam ensinando isso tudo enquanto ele estava aprendendo. Todos os líderes do movimento da Reforma também ensinaram isso. O que é especial quanto a Calvino é a clareza e a ênfase de sua referência sobre tudo o que Deus traz, especialmente nos processos da nova criação, a Deus, o Espírito Santo, e o desenvolvimento desse ponto de vista sobre uma doutrina rica e repleta da obra do Espírito Santo.

 

Então, provavelmente aqui está a maior contribuição de Calvino ao desenvolvimento teológico. Em suas mãos, pela primeira vez na história da igreja, a doutrina do Espírito Santo obtém o que lhe é de direito. No coração de ninguém mais do que no dele, a visão da glória de Deus brilhava, e ninguém esteve mais determinado do que ele a não dar a glória de Deus a outro. Quem foi mais devotado do que ele ao Salvador, por cujo sangue ele foi comprado? Porém, acima de tudo, está o senso da obra soberana da salvação por meio da onipotência do Espírito Santo que caracteriza todo o pensamento de Calvino sobre Deus. E, portanto, acima de tudo, ele merece o grande nome de “o teólogo do Espírito Santo”.

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