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João Calvino e a Reforma (500 da Reforma)

João Calvino e a Reforma (500 da Reforma)

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João Calvino não pertenceu à primeira geração de Reformadores. Quando Lutero pregou as suas noventa e cinco teses na porta da igreja do castelo em Wittenberg, Calvino era uma criança de oito anos. Quando iniciou sua obra como Reformador, a primeira grande batalha da Reforma já havia sido combatida. Ulrico Zwínglio já havia morrido há cinco anos. Martinho Lutero, embora tivesse apenas cinquenta e dois anos, já era um homem velho, de saúde debilitada e de espírito deprimido. Filipe Melânchton já estava mostrando sinais de vacilar nos primeiros princípios da Reforma. Martin Bucer, no auge de sua capacidade, estava trabalhando frutiferamente em Estrasburgo, lutando contra grandes contingentes para unir as forças da Reforma em um movimento comum em prol do evangelho.

Calvino considerava Lutero com a mais profunda reverência, e alegremente chamava a si mesmo de seu discípulo. Ele o chamou de “aquele ilustre apóstolo de Cristo, por cujo trabalho a pureza do evangelho foi restaurada a esta era”. Havia ocorrido rumores da reforma antes da Reforma na França, como em outros lugares. Mas não foi a partir do tímido biblicismo de LeFevre D’Etaples que Calvino recebeu o evangelho. Independentemente do meio pelo qual o evangelho o alcançou, a fonte de sua inspiração estava em Lutero. As influências mais específicas que o tornaram precisamente o reformador que ele foi, ele recebeu, na medida em que as recebeu através de uma mão humana, não de Lutero, mas de Bucer. Martin Bucer não o tornou um reformador. Ele já havia iniciado completamente o seu trabalho de reforma antes de entrar em contato com Bucer. Nem Bucer lhe deu a inclinação particular que caracterizou o seu trabalho como reformador. Essa inclinação era completamente evidente desde o início de seu trabalho de reforma. Precisamos reconhecer em Calvino um gênio individual de primeira grandeza, que chegou a uma compreensão mais ampla e profunda do que o próprio Bucer já havia chegado. Ele já havia encontrado suas principais linhas de trabalho e já havia sofrido em nome delas antes de se aproximar de Bucer. Mas ele encontrou em Bucer um espírito também genial, com muitos dos pontos de vista em comum, e de quem ele obteve muito benefício.

Ele obteve de Bucer, por exemplo, o seu modo de declarar a grande doutrina da predestinação. Todos os grandes reformadores criam na doutrina da predestinação. A Reforma, do ponto de vista teológico, foi um avivamento agostiniano. Seu próprio coração se revoltava contra a ideia de salvação que dominou e amaldiçoou a Idade Média, uma concepção que estabelece no próprio homem o ponto decisivo de sua salvação. Como um dito atual o expressa: Faça o melhor que puder, e Deus atentará para você. O que você tinha que fazer era, sem dúvida, reduzido ao mínimo possível, ainda que as consciências perturbadas soubessem que não podiam fazer nada para esse propósito. Isso chegou a ser expresso da seguinte maneira: você pressiona o botão e Deus fará o restante. Mas você sempre tinha que pressionar o botão. E esse era um botão que os pecadores não conseguiam pressionar! Portanto, a Idade Média [isto é, Igreja de Roma] minimizava o pecado. Eles ensinavam que o homem, sem dúvida, era um pecador; mas que ele não era grande pecador. Ele não era tão pecador que não poderia cooperar ativamente com todos os auxílios que Deus poderia lhe dar; que ele não poderia obter a sua própria salvação, caso Deus apenas lhe concedesse um pouco de ajuda oportuna.

Foi contra toda essa doutrina mortal da capacidade e do mérito humanos que a Reforma se posicionou com paixão. Ela lançou o seu dardo, como Robert Browning o expressa, diretamente sobre a cabeça dessa mentira: ensinou sobre o pecado original e a corrupção do coração do homem. Ensinou — e essa é a essência de toda a questão — a salvação pela livre graça somente; livre graça, ou seja, a misericórdia absolutamente gratuita da parte de Deus, dada não àqueles que a conquistaram, mas àqueles que não a mereciam. Assim, toda a glória da salvação do homem pecador pertence a Deus, e o homem não tem nada pelo que possa se vangloriar, exceto o próprio Deus salvador. E quando você ensina a graça livre, graça absolutamente gratuita, e o faz de forma coerente, você é a favor da predestinação. Uma graça que é dada gratuitamente, absolutamente livre, para além de todos os méritos, de qualquer tipo, depende, é claro, totalmente da vontade do doador. Assim, todos os reformadores eram ardentes em favor da predestinação: Lutero e Zwínglio, e até Melânchton, antes de começar a se afastar da pureza do evangelho que ele, a princípio, ensinou com tanto vigor. Calvino pensava que o modo de ensinar de Lutero e de Zwínglio sobre a predestinação era um pouco — não decidido ou assertivo, não poderia ser isso — especulativo na forma e talvez irrefletida na expressão. Ele apreciava o modo de Bucer de expressá-la melhor; um modo de comunicá-la que diz tudo e diz tudo com clareza e força (pois, esta não é a verdade salvífica de Deus?), mas que mantém a mente e o coração estabelecidos o tempo todo no glorioso fato de que o que está sendo falado é sobre a pura vontade do Pai todo-misericordioso, que por sua livre graça salva pecadores. Então, como Bucer, Calvino pregou o agostinianismo comum da Reforma de uma maneira superlativamente prática.

E aqui tocamos em uma de suas principais características como reformador. Calvino foi, de modo eminente, um reformador prático. Ele foi o maior exegeta do tempo da Reforma: ele foi o maior teólogo da Reforma. E ele foi o gênio prático da Reforma. Não dizemos que ele foi o gênio prático da Reforma, apesar de seus comentários eruditos e de sua teologia profunda e profundamente fundamentada. É melhor dizer que ele o foi em grande parte por causa destes. Calvino provavelmente nunca fez algo mais prático do que expor as Escrituras a cada dia com compreensão penetrante e honestidade clara e cuidadosa dos comentários nos quais ele é insuperável. E ele certamente nunca fez algo mais prático do que escrever os Institutas da Religião Cristã. A publicação desse livro foi como arvorar o estandarte do Rei na Europa Medieval, para que todos os seus súditos pudessem se reunir em torno dele. Essa obra estava elevando a bandeira no alto a fim de que todos os homens pudessem vê-la e se aproximar. Ela forneceu, por fim, uma plataforma para os Protestantes que em todos os lugares eram atacados, e muito facilmente confundidos com os radicais daquele tempo — os radicais que minaram os próprios fundamentos da fé cristã, derrubaram todo o tecido da ordem social e ultrajaram os ditames mais comuns da decência ordinária. Sua publicação encontrou uma crise e criou uma época; deu uma nova estabilidade ao Protestantismo e o expressou ao mundo como um sistema coerente de verdade fundamentada pela qual os homens possam viver e pela qual possam morrer com alegria.

Contudo, não foi apenas em realizações como essas que o gênio prático de Calvino se evidenciou. Ele condicionou todo o seu trabalho como reformador, e lhe deu a sua qualidade específica. O que desde o início se propôs a fazer foi organizar o Protestantismo e discipliná-lo. Organização e disciplina são as coisas que distinguem um exército de uma multidão. De fato, Calvino encontrou o Protestantismo como uma multidão e o transformou em um exército. Essa foi a sua grande realização, a tarefa específica que lhe coube entre os Reformadores. Lutero não tentou, nem desejou organizar os Protestantes. Ele dizia que pregar o evangelho era o suficiente, e todo o restante cuidaria de si mesmo. Contudo, não era suficiente, e todo o restante não cuidaria de si mesmo. Calvino, entrando no movimento da Reforma posteriormente, quando havia confusão, percebeu que não era suficiente. Isso pode ter estado em seu sangue francês; pode ter vindo de sua educação no direito; pode ter pertencido ao seu gênio individual. Mas quando ele chegou a Genebra como um jovem de vinte e sete anos, já veio com o seu programa de organização e disciplina, e com uma vontade indomável de colocá-lo em prática. Os genevenses não o quiseram. Eles o expulsaram. Ele viveu e trabalhou três bons anos em Estrasburgo. Então, os genevenses o trouxeram de volta. E ele voltou com o mesmo programa de organização e disciplina, e com a mesma vontade inflexível de colocá-lo em prática. Demorou quatorze anos para realizá-lo, mas ele conseguiu. E o resultado foi que Genebra tornou-se não só a maravilha do mundo, mas felizmente o modelo de mundo Reformado; e por causa de seu modelo, também no verdadeiro sentido é o seu salvador e, com ele, o salvador, como diz Mark Pattison, da Europa.

Devemos ter em mente que a organização e a disciplina que Calvino introduziu em Genebra foram a organização e a disciplina da igreja, não da cidade. As chamadas “Leis Azuis” das quais ouvimos tanto, Calvino não as apresentou em Genebra. Ele as encontrou lá. Elas eram uma herança da Idade Média e eram comuns a Genebra e a todas as cidades semelhantes. Elas eram ordenanças civis, e Calvino, como reformador, não tinha nada a ver com elas, exceto como um bom cidadão faz a parte do cidadão de modo a reduzi-las à consistência racional e ética. O que ele introduziu em Genebra foi distintamente a organização e a disciplina da igreja. Era a visão predominante entre os Protestantes que a função da igreja era pregar o evangelho e administrar os sacramentos, deixando completamente às autoridades civis o lidar com as ofensas. Calvino não conseguia entender essa visão. A igreja não deveria apenas pregar o evangelho, disse ele, mas cuidar para que o evangelho seja vivido entre aqueles que a constituem. O único instrumento pelo qual esse dever pode ser executado é a disciplina. Disciplina espiritual, é claro; pois a igreja é um corpo espiritual. Somente as penalidades espirituais poderiam ser infligidas, culminando com a exclusão das ordenanças da igreja ou com a excomunhão. O conflito real em Genebra girou em torno da proteção da Ceia do Senhor dos participantes indignos. Ao estabelecer essa disciplina da igreja em Genebra, Calvino indicou uma ruptura entre a Igreja e o Estado, cujo efeito final o tornou o pai do princípio de uma igreja livre em um estado livre.

A purificação da Igreja, é claro, teve o seu efeito sobre o estado. O fermento fermentará a massa na qual ele é colocado. Uma igreja santa tende a promover uma comunidade moral, e Calvino não foi escasso na pregação de que entre os deveres cristãos está o dever da boa cidadania. E, como subproduto dos trabalhos de Calvino, Genebra se tornou uma comunidade moral notável: as leis sumptuárias se tornaram, ao contrário daquelas de muitos ao redor, saudáveis e sãs, e sua execução se tornou justa e honesta. John Knox dá o seu testemunho do resultado: “Em outros lugares eu confesso que Cristo é pregado, mas os costumes e a religião sendo tão sinceramente reformados eu não vi em nenhum outro lugar”. E, a partir de Genebra, o fermento se espalhou e, ao se espalhar, pôs saúde moral e vigor no sangue do mundo Reformado. Não é por acaso que o Luteranismo não se espalhou além das fronteiras da Alemanha, exceto no norte escandinavo. O vigor do Protestantismo que sabia como viver, que se lutava por seus próprios ideais até a própria morte, encontrou a sua expressão nas igrejas Reformadas. Foram elas que suportaram o peso da batalha. E assim, ao olhar para o mapa, você vê as igrejas Reformadas envolvendo as Igrejas Luteranas com um baluarte protetor. “Apenas perguntem a si mesmos”, diz o Dr. A. Kuyper, “o que a Europa e a América teriam se tornado, se no século XVI a estrela do Calvinismo não tivesse surgido de repente no horizonte da Europa Ocidental… O grande desenvolvimento das nações, como se viu na Europa e na América, simplesmente teria sido evitado… Para sempre permanece a questão de saber se o espírito do Interim de Leipzig não teria conseguido, por meio de um Protestantismo romanizado, reduzir a Europa do Norte novamente à influência da antiga hierarquia… O professor Fruin observa com razão: ‘Na Suíça, na França, na Holanda, na Escócia e na Inglaterra, e onde o protestantismo precisou se proteger através da espada, foi o Calvinismo que obteve a vitória por meio dela’”.

 

Lutero liderou o ataque às trincheiras; Calvino consolidou as vitórias. Na medida em que podemos ver (falamos quanto ao aspecto humano), na ausência de ambos, não haveria Protestantismo algum hoje.

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